A cruz, o sofrimento, o desconforto, são as oportunidades que temos para mudar.
"Falhei de novo, Senhor! Por favor dá-me uma nova oportunidade - dá-me uma cruz que eu possa suportar!"
Três conselhos relativos ao que podes fazer pela tua parte para te aproximares de Deus:
1 - Ira e orgulho
Nunca te enerves, irrites, maltrates. Não sejas soberbo. Não te julgues superior. Sobretudo em família, não percas a cabeça, não grites, não sejas ríspido, não sejas irónico, não sejas maldoso. No auge da cruz, mesmo que te sintas maltratado ou injuriado, ou mesmo traído, não respondas mal. Não deixes sair o mal de ti. Como disse Jesus, dá a outra face, dá a capa, anda o dobro da distância - e não julgues. Só assim estás a vencer o mal que há em ti. Só assim podes vencer a batalha que travas com o teu egoísmo. Esta é a oportunidade: quando sentires vontade de ripostar - não respondas; quando sentires vontade de dar largas à tua irritação - responde com sorriso e trato amáveis; se te apetece maldizer o teu azar - não o faças.
A luta entre o Bem e o Mal é esta. Trava-se nos momentos em que sofremos contrariedades. Responder-lhes de forma negativa é cair no engodo do inimigo. Usar de Prudência, Justiça, Força e Temperança - as quatro virtudes cardeais - são as armas com que podemos derrotar o inimigo e passar mais além.
A Paciência e a Humildade são, como as outras cinco virtudes, resultado do exercício das virtudes cardeais. São as armas contra a ira e o orgulho.
Os monstros que vemos nas guerras simbólicas, como por exemplo no Senhor dos Anéis ou nas Crónicas de Nárnia, existem. Estão dentro de nós. São as aberrações criadas pelo nosso egoísmo e têm uma profundidade e força dentro de nós de que geralmente não conseguimos sondar a verdadeira dimensão. O Bem, que combate esses monstros, também existe: é Deus, Pai, Filho e Espírito Santo. Sob a sua protecção, e exercitando as virtudes, podemos realmente derrotar o inimigo.
Eis porque é importante não responder, não acusar, não praguejar, não fazer mal aos outros como escape para a tensão que nos dilacera.
É um combate. E o combate custa. Que ninguém tenha a ilusão de que vai obter o bem-estar interior de um momento para o outro só porque abraça uma crença. Não! Poderá ter Paz. Mas Paz na luta, no sofrimento. Só há transformação lutando contra o mal que nos mina. E essa luta dói. Portanto não sintas que estás a falhar porque raramente sentes esse estado de beatitude por que tanto anseias.
Mas não te deixes levar pela simbologia. É uma luta, sim, mas é uma luta de e por Amor. Sobretudo para as famílias, a tua primeira luta contra o teu egoísmo, logo pela manhã, deve ser o acolhimento total e incondicional da tua família. Abre espaço dentro de ti para o teu esposo ou esposa, para os teus filhos, deixa-os ser dentro de ti, acolhe-os com a amizade mais pura, com o amor mais puro, Dom de Deus. E repara que eu digo "pura": não deixes manchar esse amor por críticas, rancores, preconceitos. Abre-te, ama e aceita completamente. Consegues fazer isso verdadeiramente? Sabes, se hoje falhares, pedirás de novo a Deus que amanhã te dê uma nova chance. E que te ensine a amar - para venceres as bestas escuras do egoísmo, que te impedem de seres feliz, de amares completamente, que te fazem ver os defeitos em vez de agradecer tantas bençãos que te inundam.
E sempre que o exercício do amor te leve a situações de sofrimento, de qualquer tipo que seja, agradece a Deus, porque Ele de novo confiou em ti e te colocou de novo no campo de batalha. Não o desiludas de novo: dá a outra face, dá a manta e a capa, anda o dobro do que te pedirem - e não julgues! Com estas armas és um verdadeiro soldado de Deus. Estás a construir a Paz na Terra.
2. Gula e Luxúria
Não cedas às tentações mais básicas da luxúria e da gula. São uma porta do mal. E não faz mal por onde ele entre. Qualquer porta serve. Por isso é que é tão perigoso subestimar a gula, como se fosse um pecadito tolerável. A gula e a luxúria colocam-nos fora de nós. E isso é um passo para nos deixarmos controlar pelo mal. E o problema é que o apelo pode ser tão forte que quando a circunstância se propicia avançamos sempre como se não fosse possível fazer mais nada. É melhor, por isso, fazer como o Ulisses e amarrar-se ao mastro do navio. Enquanto ainda estamos conscientes devemos envidar todos os esforços por detectar o perigo e evitá-lo a tempo. E isso consegue-se exercitando as virtudes da temperança e da castidade.
3. Avareza, Inveja e Preguiça
O "workaólico" típico, o homem de negócios que não perde tempo com os filhos, o cientista que não consegue parar de pensar nos seus problemas e esquece todos os outros, - tudo isto são manifestações de avareza: na ânsia de amealharem dinheiro ou fama os homens tornam-se avaros com a vida. Não têm tempo para mais nada além dos seus planos mesquinhos (por mais grandiosos que pareçam). Muitas vezes a motivação profunda vem da inveja: querer ser tanto ou mais que os outros; ou não suportar ser menos que os outros. A avareza e a inveja são os pecados que nos tornam fechados em nós próprios. Fechados ao mundo, fechados a Deus, fechados aos outros, rapidamente começamos a reagir mal à sua presença e a semear sofrimento por todo o lado. O remédio é, como sempre, aceitar a dádiva da nossa vida como ela é. Aceitar a viagem que Deus nos oferece e embarcar nela sem expectativas de grandiosidade pública, sabendo que qualquer coisa que Ele nos reserve é boa. Quando a avareza ataca (quando surge um problema novo, quando o negócio está em perigo, quando a conversa com os colegas nos "espicaçou"...) a melhor solução é deter-se e convencer-se da vacuidade das sua pretensões (para usar terminologia budista). O que é que pode acontecer de pior? Não posso viver com essa situação pior? Realmente qual é o problema? Veremos que geralmente o problema é o orgulho ou a inveja. Estamos a empolar o assunto, a criar uma formidável tempestade num copo de água. E este trabalho de observação da avareza e a sua desconstrução tem de ser feito regularmente. Só assim poderemos ter uma vida mais disponível para os outros e começar a deixar entrar a luz de Deus.
Mas mais uma vez há um combate: combater a avareza exige, muitas vezes, deixar morrer o nosso empenho no mundo. Cortar os apegos. Por isso é que é mais fácil fazer passar um camelo pelo buraco de uma agulha do que entrar um rico no Céu. E o que isso dói? Ai, como dói ao nosso ego simplificar a vida! Abandonar as ambições não justificáveis, desistir das pretensões a mais (dinheiro, fama, prestígio...). É a virtude da Generosidade, que parece fácil, mas que realmente, quando toca nos nossos apegos mais profundos, é tão difícil de exercitar! Mas é preciso. É preciso criar tempo para o Senhor. É preciso criar disponibilidade para o Senhor.
Contra a inveja há que exercitar a caridade. Amar a todos, querer o bem a todos.
Existe o perigo de cair no extremo oposto. Realizada, ou pelo menos vislumbrada, a vacuidade das ambições materiais, podemos cair no erro de entregar também ao senhor a nossa parte de responsabilidade nesta vida. E isto é uma forma de preguiça.
Devemos cumprir as nossas tarefas com Amor, por Deus e com Deus. Fazer o melhor possível. Essa é a nossa parte. O resultado é com o Senhor. O nosso trabalho é como aqueles complicados desenhos com areia que os budistas fazem. Depois de meses a completar a obra há que destruí-la. Tudo é passageiro, não há que nos apegarmos às coisas. Mas os monges deram o melhor de si enquanto faziam o desenho. Assim também com a nossa vida: evitar a preguiça, dar o melhor e aceitar o que vier, sem apegos. É essa a virtude da Diligência.
Conclusão
A cruz é a Salvação. A cruz resulta do teu apego ao Mundo. A cruz é a oportunidade de lutares contra o Mal que há em ti e aproximares-te de Deus. O Inimigo usa as armas da ira, do orgulho, da gula, da luxúria, da avareza, da inveja e da preguiça. Para lutares contra estas terríveis bestas negras hás-de usar as tuas armas: Prudência, Justiça, Fortaleza e Temperança. Deus Pai proteger-te-á nesta batalha, com o Filho e o Espírito Santo. Contra a ira usarás de Paciência; contra o orgulho usarás de Humildade; contra a gula usarás de Temperança; contra a luxúria usarás Castidade; contra a avareza oporás Generosidade; contra a inveja lançarás Caridade; e contra a preguiça, Diligência.
Protegei-me, Pai, nesta luta, e dai-me uma nova oportunidade se for derrotado!